Sobre o Brazil Police Watch

A MORTE DE JOE

Maio de 2007

O Brazil Police Watch nasceu da nossa tragédia pessoal. Em 25 de Maio de 2007, meu sobrinho Joseph, que estava morando no Rio, comemorava seu aniversário de 30 anos. Ele se envolveu em uma discussão com um policial fora de serviço. O policial baleou Joseph, que estava desarmado, a 16 metros de distância. Nosso pai, o avô de Joseph, era um policial em Worcester, Massachusetts, há mais de 30 anos. Por causa de nossa ligação muito pessoal com a força policial, apreciamos a complexidade da relação entre a polícia nos Estados Unidos e aqueles que são encarregados de proteger. No entanto, certamente não esperávamos que Joseph morresse nas mãos de um policial. Logo viemos a descobrir que, o que imaginávamos ser uma dor pessoal, era na verdade o resultado de um problema crônico e institucionalizado com a polícia do Rio, o qual tem sido altamente documentado, debatido e relatado por ONGs e pelas Nações Unidas.

Ouça sobre a jornada de Joseph para casa, nas histórias semanais em audio da “Kind World” e postagens regulares que celebram o efeito que atos descompromissados de bondade podem ter sobre as outras pessoas. Com curadoria e produção de Nate Goldman. Um experimento on-line apresentado pela 90.9 WBUR radio Boston (Em Inglês)

NAS NOTÍCIAS

Outubro de 2007

FIFA elege o Brasil como sede da Copa do Mundo 2014

Agosto de 2008

É publicado relatório das Nações Unidas para o Conselho de Direitos Humanos sobre as execuções extrajudiciais pela polícia brasileira

Outubro de 2009

O Comitê Olímpico Internacional elege o Brasil como sede da Olimpíada de 2016

Dezembro de 2009

Human Rights Watch publica o relatório “Força Letal”

RIO – DOR COMPARTILHADA

Março de 2010

A mãe de Joseph, Fran, e eu fomos ao Rio para o julgamento do assassino de Joseph. No Rio, minha irmã e eu conhecemos um grupo de mães, que tiveram seus filhos mortos pela polícia, denominado “Rede de Comunidades Contra Violência”. Nós protestamos com essas famílias na famosa estátua do Cristo Redentor, bem como em uma reunião realizada no local do massacre da Candelária. Candelária é o local onde, em 1993, a polícia matou oito crianças de rua enquanto as mesmas dormiam nos degraus da igreja. Entre as mães e outros membros familiares, havia um casal de idosos cuja neta de 11 anos foi assassinada, uma mulher cujos filhos de 13 e 18 anos testemunharam um assassinato pela polícia e foram encontrados executados dias depois, e uma mulher cujo filho morreu 10 anos atrás, em sua camiseta está a foto do filho, já desvanecida, há anos sendo usada nesses protestos.

Para chegarmos ao Cristo Redentor, tomamos o bonde até a estátua. A vista é realmente uma das maravilhas do mundo. Fiquei perplexa pelo contraste, de tal beleza abrigar tamanha violência. Éramos cerca de 25 pessoas, todas vestindo camisetas com rostos de jovens estampados. Tínhamos diversos cartazes. Os turistas liam os cartazes, alguns vinham e falavam conosco. Alguns aproximaram-se de minha irmã, Fran, a tocaram no braço e sussurraram algumas palavras no seu ouvido. Alguns turistas continham as lágrimas. Havia de 3 a 5 policiais nos acompanhando o tempo todo. Um helicóptero da polícia sobrevoou o local e circulou a estátua. Um pai cujo filho de 2 anos de idade foi morto em 1993, levantou uma foto dele para o céu, como se quisesse mostrar aos policiais no helicóptero porquê ele estava lá. A futilidade da situação tomou conta de mim, os 17 anos de dor desse pai me comoveram, a pungência do ato me fazia convulsionar com soluços de choro.

O Julgamento

Diversas mulheres do grupo das mães nos acompanharam no julgamento. O apoio e solidariedade delas foram um verdadeiro conforto. Fernando Delgado, do programa de Direitos Humanos e Lei da Universidade Harvard, havia descoberto um problema e feito alguns questionamentos junto ao promotor. Quatro testemunhas tinham ido à delegacia no dia seguinte ao assassinato, mas nunca foram entrevistadas. Um relatório preenchido na delegacia com as informações de contato das testemunhas foi misteriosamente removido dos arquivos, de modo que nem o promotor, nem o advogado de defesa, estavam sequer cientes da existência dessas testemunhas. Duas das quatro testemunhas foram encontradas apenas dias antes do julgamento. Cada uma perguntou ao juiz se ele poderia “protegê-las”, caso prestassem depoimento. O juiz explicou que não poderia garantir a segurança delas. Como resultado, ao depor, as declarações delas resumiram-se a explicar que elas não teriam visto nada. Enquanto a mãe de Joseph, Frances, e eu assistíamos na audiência, percebemos que a falta do documento acerca das testemunhas, o fracasso em realizar uma investigação minuciosa, e o resultado no qual o policial que assassinou Joseph fora inocentado, era tudo uma conclusão já prevista. O nosso dia no tribunal não foi diferente de outros julgamentos de policiais no Rio.

UM APELO à Ação

Retornei do Brasil me esforçando para pensar em como continuar nossa luta fora do tribunal. Havia muitas maneiras de fazer isso, mas no que eu poderia acrescentar? Pensei sobre como vários ativistas de direitos humanos já haviam me falado da preocupacão deles com o fato de que a Copa do Mundo e Olimpíada causariam um aumento na violência policial. Cheguei à conclusão de que chamar atenção internacional para o problema poderia ajudar a preveni-lo e também expor os abusos rotineiros. O Presidente Lula havia realizado tanto durante seu mandato como presidente; diminuiu a pobreza e aumentou a taxa de alfabetização. Os programas econômicos haviam isolado um pouco o Brasil do colapso dos mercados financeiros em todo o mundo. O país estava realmente em ascensão. No entanto, há um problema gritante com esta imagem de sucesso. Ou a polícia está agindo em nome de seu governo ou, o governo não tem controle de sua polícia. Assim que comecei a prestar atenção nesta situação, me abalei com as atrocidades sobre as quais eu li: o adolescente morto pela polícia enquanto voltava da escola para casa, na garupa da moto de seu pai; o vídeo do garoto de 14 anos desarmado, baleado por cinco policiais; um boxeador promissor com destino à Olimpíada, assassinado pela polícia. A horrível lista de casos é enorme.

Junho de 2010

O congressista James McGovern convoca uma audiência na Comissão de Direitos Humanos de Tom Lantos. Eu dei meu testemunho orgulhosamente, ao lado de James Cavallaro, diretor executivo do Programa de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade Harvard, Daniel Wilkinson, vice-diretor da divisão das Américas da Human Rights Watch, e David Dixon, especialista do país Brasil na Anistia Internacional.

A tragédia atinge muitos de nós, e todos reagimos de uma forma única. Minha resposta ao assassinato de Joseph foi de revolta. Como muitos, assisti maravilhada a ascensão do Brasil, empolgada com o progresso feito na sua luta contra a pobreza e analfabetismo. Quando eu finalmente fui para o Rio, francamente, sob pressão, para participar da passeata, desci do avião entorpecida com a ambivalência deste lugar que Joseph amava, mas que eu acabei por encarar como um local onde o assassinato estatal era intencionalmente sancionado. No entanto, quando cheguei, como Joseph, me apaixonei pelo Brasil. Como eu poderia conciliar essas tensões, e a crença arrasadora de que o governo e a mídia brasileira teriam desenvolvido uma perspectiva perversa, de que violência policial é algo, de alguma forma, aceitável.

Iniciei um processo de leitura, reflexão e busca de conselhos e informações. Que sorte a minha viver em Boston, onde ocorrem palestras, quase semanalmente nas várias universidades, por estudiosos brasileiros, artistas, políticos, etc… Encontrei-me com acadêmicos, ativistas e líderes religiosos, e procurei conselhos e sugestões. Lentamente, eu desenvolvi uma estratégia de trabalho para ajudar a criar uma mudança nos departamentos policiais brasileiros.

Tenho desenvolvido uma relação de trabalho próxima com o programa Esporte na Sociedade, da Universidade Northeastern. Com o comprometimento da universidade com a justiça social e os esportes, a colaboração foi perfeita.

A cada passo do caminho, tenho contado com a bondade, generosidade e competência de estranhos. Impressiona-me a generosidade dessas pessoas que querem ajudar.

Encarei esta empreitada com plena consciência de que minha presença tem como objetivo acrescentar-se ao importante e valioso trabalho que está sendo feito no Brasil, pelos grupos de direitos humanos do país. O grupo Brazil Police Watch existe para defender esses grupos, apresentando uma voz alternativa para um público diferente. Sinto-me humilde e orgulhosa de ter marchado com os representantes dos vários grupos enquanto estive no Rio, em 2010. Em nossa dor compartilhada, eu me uno a eles, orgulhosa e admirada da coragem e perseverança deles, e honrada de me juntar a eles nesta causa importante.

Liz Martin
Agosto de 2011

Brazil Police Watch é uma organização do Estado de Massachusetts. A Receita Federal dos Estados Unidos da América reconhece o Brazil Police Watch (BPW) como uma instituição de caridade pública da Section 501(c)(3). Doações ao BPW são deduzíveis do imposto de renda nos Estados Unidos da América. Nosso número de Identificacão de contribuinte fiscal (Tax ID number) é 27-4316693.

No campo, um time vence.
Fora de campo, todos devemos vencer.
Jogos seguros para todos!

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